
Defesa contesta mudança em óbito de Benício
Manaus (AM) – A defesa da médica Juliana Brasil, investigada pela morte do menino Benício Xavier, de 6 anos, após a aplicação incorreta de adrenalina no Hospital Santa Júlia, em Manaus, contesta a mudança feita no registro de óbito da criança. O caso, que chocou o Amazonas, ganhou novos contornos após a alteração da causa da morte, feita dois dias depois do falecimento.
Benício morreu na madrugada de 23 de novembro de 2023, após dar entrada no hospital com sintomas de laringite. Segundo a Polícia Civil, ele recebeu uma dose de 9 mg de adrenalina diretamente na veia, quantidade considerada letal para uma criança da idade dele. O protocolo médico indicava o uso da substância por nebulização, em dose significativamente menor.
Mudança na causa da morte
A certidão de óbito emitida no dia da morte apontava “crise respiratória” e “parada cardiorrespiratória” como causas. No entanto, no dia 25 de novembro, o hospital emitiu uma nova ficha de revisão de óbito, alterando a causa para “intoxicação exógena por adrenalina”.
A defesa da médica afirma que a mudança foi feita sem respaldo técnico ou laudo complementar. “Não houve nova perícia, nem comunicação formal à profissional responsável. Essa alteração é ilegal e compromete a lisura do processo”, disse a advogada Alessandra Vila, que representa Juliana Brasil.
Contradições e investigação
Juliana Brasil inicialmente reconheceu o erro na prescrição da dose, conforme mensagens enviadas a colegas médicos e registradas nos autos. No entanto, durante acareação com outros profissionais do hospital, ela alegou que o sistema eletrônico da unidade apresentou instabilidade e que a dose teria sido preenchida automaticamente de forma incorreta.
A Polícia Civil do Amazonas trata o caso como homicídio culposo, quando não há intenção de matar e apura também possível tentativa de adulteração do prontuário médico. Três testemunhas ouvidas pela Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca) afirmaram que a médica tentou alterar registros no sistema após o ocorrido.
Imagens e prontuário
Imagens de câmeras de segurança do hospital mostram o momento em que Benício chega à unidade e é atendido. O vídeo, que integra o inquérito, mostra a movimentação da equipe médica e o tempo decorrido entre a aplicação da medicação e a parada cardiorrespiratória da criança.
O prontuário médico, segundo a polícia, também passou por alterações. A defesa da médica nega qualquer tentativa de manipulação e afirma que Juliana está colaborando com as investigações.
A família de Benício acompanha o caso com indignação.
“Queremos justiça. Nosso filho era saudável, foi ao hospital com tosse e febre, e saiu morto. Não podemos aceitar que tentem mudar a história”, disse o pai da criança, em entrevista à imprensa local.
O Conselho Regional de Medicina do Amazonas (Cremam) abriu sindicância para apurar a conduta da médica e do hospital. O Hospital Santa Júlia, por sua vez, informou que está colaborando com as autoridades e que instaurou uma investigação interna.
O que diz o hospital
Em nota, o Hospital Santa Júlia afirmou que a revisão da causa da morte foi feita com base em “novas informações clínicas” e que o procedimento está previsto em normas do Ministério da Saúde. A instituição não comentou as acusações de adulteração de prontuário.









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